Teoria da Realidade Original
← Sobre o livro: A Árvore, Nós e a Existência
Índice
Aa
20px
Parte VIII — A espécie: continuidade no tempo cósmico

Capítulo 20 — O critério humano

Ao longo do livro, mudamos várias vezes de escala: árvore, floresta, animais, humanos, planeta, cosmos. Quando voltamos ao humano depois desse percurso, aparece uma questão diferente: a partir de que critérios avaliamos o mundo e decidimos o que importa?

Não conseguimos deixar de começar a partir de uma perspectiva humana. Mas isso não significa que exista um único “critério humano” inevitável.

Nossos sentidos, necessidades, emoções, linguagem e cultura moldam aquilo que percebemos e valorizamos. A sobrevivência e a continuidade importam muito, mas humanos também podem orientar escolhas por vínculos afetivos, princípios morais, curiosidade, beleza, religião, conhecimento ou preocupação com seres que jamais trarão benefício direto para nós.

A preocupação com nossa própria continuidade aparece de forma simples:

  • procuramos proteger nossa saúde e a de pessoas próximas;
  • organizamos sociedades, entre outras razões, para ampliar segurança, acesso a alimento e abrigo;
  • usamos ciência e tecnologia para compreender o mundo, resolver problemas, reduzir riscos e ampliar possibilidades.

Quando falamos em progresso, bem-estar, desenvolvimento ou futuro, a continuidade humana costuma estar presente, mas esses conceitos também envolvem disputas sobre liberdade, justiça, qualidade de vida, conhecimento e aquilo que consideramos uma vida desejável.

Não existe um ponto de vista humano completamente fora da condição humana. Ainda assim, conseguimos reconhecer nossos próprios interesses, compará-los com os de outras pessoas e seres e até escolher agir contra vantagens imediatas em nome de princípios.

O cuidado com florestas, clima, oceanos ou outras espécies pode nascer de motivos diferentes. Podemos protegê-los porque dependemos deles, porque queremos preservá-los para outras gerações ou porque atribuímos valor à vida e à natureza independentemente de sua utilidade para nós. Essas são posições éticas diferentes, não conclusões determinadas pela física.

Em muitas decisões ambientais, interesses humanos aparecem de maneira clara:

  • equilíbrio ecológico que nos beneficia,
  • estabilidade climática que sustenta nossa agricultura,
  • valores culturais e afetivos ligados a lugares e espécies.

A busca por continuidade também aparece em muitos momentos da história:

  • Migramos quando ambientes se tornam hostis.
  • buscamos novas fontes de recursos quando as antigas se tornam insuficientes;
  • criamos soluções quando encontramos limites ou problemas.

Mas seria excessivo dizer que tudo passa pela continuidade da espécie. Muitas decisões humanas são locais, individuais, contraditórias e até prejudiciais à própria continuidade.

Riscos percebidos como próximos ou graves podem mobilizar sociedades, mas a resposta humana não segue uma regra única. Informação, cultura, instituições, interesses, emoções e percepção de risco interferem no modo como reagimos.

Quando projetamos o futuro, uma das perguntas possíveis é: o que aumenta nossas chances de continuar aqui? Mas ela convive com outras: continuar como, para quem, sob quais condições e com quais valores?

A continuidade, portanto, é um critério importante — não o único e nem um critério moralmente neutro em todas as situações.

Reconhecer essa preocupação ajuda a entender alguns projetos humanos: reduzir riscos globais, criar ambientes artificiais e até imaginar presença permanente fora da Terra. Esses projetos, porém, envolvem também escolhas econômicas, políticas, científicas e éticas.

A partir daqui, o foco se estreita para uma dessas preocupações: como reduzir a dependência de um único lugar e diminuir riscos capazes de atingir toda a espécie.

Sua posição de leitura é salva somente neste navegador.