Teoria da Realidade Original
Conheça os fundamentos

A Teoria da Realidade Original

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Índice

2 Antes de explicar a teoria

2.6 O laboratório que você carrega consigo

Nos anos 1970, os psicólogos Richard Nisbett e Timothy Wilson montaram uma banca numa loja de departamentos nos Estados Unidos. Sobre a mesa, quatro pares de meias-calças dispostos lado a lado. Os passantes eram convidados a examiná-los e a escolher o de melhor qualidade. O que eles não sabiam é que os quatro pares eram idênticos. Mesmo assim, as escolhas não se distribuíram ao acaso: o par da direita foi preferido numa proporção de quase quatro para um em relação ao da esquerda. Perguntados sobre o motivo, os participantes falavam da trama do tecido, da elasticidade, do acabamento. Ninguém mencionou a posição. Quando os pesquisadores perguntaram diretamente se a posição poderia ter influenciado a escolha, quase todos negaram, alguns olhando para o entrevistador como quem desconfia de estar falando com um louco.

A experiência revela duas coisas ao mesmo tempo. Algo dentro de nós participa das escolhas sem pedir licença à consciência. E, quando explicamos o que fizemos, a explicação pode ser construída depois, com o material que parece razoável, como os estudantes de Bartlett reconstruíam a lenda. O item anterior mostrou que cada leitor interpreta o mundo a partir de uma matriz cognitiva. Este item propõe observá-la funcionando, no único lugar em que ela está sempre disponível para exame: em nós mesmos. Carregamos um laboratório desde o nascimento, usamos esse laboratório a cada instante e raramente o investigamos de propósito.

O primeiro instrumento desse laboratório é a atenção. Enquanto você lê estas linhas, os olhos se movem, a respiração continua, músculos sustentam a postura e sensações chegam de várias partes do corpo. Quase nada disso alcança a consciência. Experimente deslocar a atenção para um desses processos, o apoio do corpo na cadeira, por exemplo, e note o que acontece: uma sensação que já estava ali passa a existir para você. O corpo não começou a funcionar quando foi observado. Mudou o recorte: aquilo que você escolheu colocar em primeiro plano.

Faça o mesmo com os pensamentos. Acompanhe por alguns instantes o que passa pela mente, sem tentar controlar nada. Em algum momento, um pensamento vai arrastá-lo para longe do exercício, e só depois de um tempo você vai perceber que se distraiu. Esse instante de percepção é o dado mais valioso do experimento. A psicologia chama de metaconsciência a capacidade de reconhecer explicitamente o que está acontecendo na própria experiência, e os estudos mostram que ela falha com frequência: passamos boa parte do tempo distraídos sem saber que estamos. Perceber a distração é ver a atenção funcionando por dentro.

O laboratório fica mais revelador quando a emoção entra em cena. Pense numa discussão acalorada. Uma frase do outro soa como provocação, uma discordância parece ataque, e cada resposta confirma a impressão anterior. O corpo participa: a voz sobe, os ombros se contraem, a atenção se fecha sobre o que incomoda. Horas depois, com a raiva dissipada, a mesma pessoa relembra a conversa e descobre que algumas palavras já não parecem tão ofensivas. O que foi dito não mudou. Mudou o estado a partir do qual ela interpreta o que foi dito.

Comparar as duas leituras da mesma cena é um dos experimentos mais úteis que alguém pode fazer consigo. Ele mostra a emoção agindo como um motor: orienta a atenção, favorece certas interpretações e prepara certas respostas. Mas o motor não escolhe sozinho o caminho. Diante da raiva, uma pessoa enfrenta e outra silencia; diante da tristeza, uma procura companhia e outra se recolhe. A experiência, os hábitos e o contexto também participam do resultado. O psicólogo James Gross descreve as emoções justamente assim: como tendências de resposta que a atenção e a avaliação modificam ao longo do caminho.

O exercício ganha força com a repetição e com a ordem. Comece pelo corpo, que é o mais fácil de observar; passe aos pensamentos; depois às emoções; e, por fim, às relações entre eles: que sensação acompanha esta emoção, que pensamento ela traz de volta, que resposta ela prepara. Quando uma situação despertar uma reação intensa e não for possível observá-la na hora, volte a ela mais tarde, já em outro estado, e compare as duas leituras. Não é preciso vigiar tudo a todo instante. Como qualquer instrumento, a metaconsciência se desenvolve com o uso, e esse uso pode acompanhar a vida inteira.

O laboratório não termina em você. Os seres humanos compartilham os mecanismos básicos da emoção e do pensamento, ainda que cada um responda à sua maneira. Por isso, quem aprendeu a reconhecer como a raiva estreita a própria atenção, endurece as interpretações e empurra para certas respostas passa a reconhecer o mesmo processo nos outros: o tom que endurece, a insistência num mesmo argumento, a dificuldade de considerar uma alternativa. Esse reconhecimento permite mais do que adivinhar o que alguém sente. Permite identificar padrões e antecipar tendências: enquanto a raiva durar, certas respostas se tornam mais prováveis e outras, menos. Quem percebe isso escolhe melhor o momento de argumentar, de esperar ou de ouvir. São hipóteses, e precisam ser tratadas como tal. O experimento das meias mostrou que nem sobre nós mesmos o acesso é completo, e Tal Eyal, Mary Steffel e Nicholas Epley mostraram que imaginar o ponto de vista de outra pessoa acerta menos do que perguntar diretamente a ela. O laboratório interno fornece padrões e hipóteses; a observação atenta e a conversa os testam e os corrigem.

Quem observou a raiva reorganizar a leitura de uma conversa viu a matriz cognitiva funcionando por dentro. O que se aprende nessa escala pequena ajuda a formular perguntas sobre escalas maiores, porque crenças, teorias científicas, convicções políticas e decisões coletivas são produzidas por seres humanos com os mesmos processos de percepção, emoção e julgamento. E há um experimento desse tipo acontecendo agora mesmo: a leitura destas páginas.

Esse experimento tem dois lados, e o de quem escreve não é exceção. O autor destas páginas também trabalha com uma memória que reconstrói. Há dias em que as palavras chegam com facilidade e dias em que o cansaço ou uma preocupação deixam fora de alcance relações que, depois de uma noite de descanso, parecem simples. Durante a revisão deste texto, ele viveu um episódio que resume o item anterior. Ao propor um exemplo novo, o de uma árvore que não termina onde terminam suas folhas, descobriu que já havia escrito, tempos antes, uma seção inteira sobre o mesmo assunto, e que não se lembrava nem do conteúdo nem de sua existência. O texto antigo tinha sido esquecido; a essência, não. A nova formulação nasceu diferente nas palavras e alinhada na estrutura, como se a mesma matriz tivesse gerado o raciocínio duas vezes. E ele só percebeu isso porque o registro escrito estava ali para ser comparado: a introspecção, sozinha, não teria mostrado. Reconhecer esse funcionamento também é um exercício de metaconsciência. Às vezes, o melhor a fazer é descansar; outras vezes, registrar a ideia enquanto ela está disponível.

Do lado de quem lê, o texto é o mesmo para todos; as condições, não. Um leitor prefere fórmulas a analogias; outro, imagens a descrições; outro, argumentos diretos a narrativas. Uma palavra causa estranhamento porque você está habituado a usá-la em outro sentido. Uma preocupação, o cansaço ou a pressa tornam árida uma explicação que, em outro dia, despertaria seu interesse. Essas condições participam da disposição de continuar, da facilidade de acompanhar um argumento e até da rapidez com que uma ideia é aceita ou rejeitada. É o experimento das meias acontecendo na página: algo influi no julgamento sem se anunciar.

É aqui que a metaconsciência ganha uma função direta na leitura da TRO. Quando uma passagem despertar entusiasmo, impaciência, desconfiança ou rejeição, observe também a sua reação. O que a provocou? O argumento, a linguagem, uma expectativa contrariada, a lembrança de algo que você já conhece ou o estado daquele momento? Reconhecer essas influências não decide quem tem razão. Serve para separar aquilo que o texto afirma da maneira como você o está recebendo. Feita essa separação, a crítica que resta é mais precisa, e, quando o problema estiver na explicação e não na leitura, ele aparecerá com mais nitidez. A TRO não pede que o leitor aceite suas proposições por ter feito esse exercício. Pede que examine também o instrumento com o qual vai examiná-las.

Os participantes do experimento das meias não tinham como descobrir, apenas olhando para dentro, por que escolheram o par da direita. Foi preciso um experimento externo para revelar o que a introspecção não alcançava. O laboratório que carregamos não substitui o da ciência: os dois se completam. Um está sempre disponível e gera perguntas; o outro testa as respostas. Aprender sobre si não encerra o conhecimento do ser humano, mas é um de seus pontos de partida mais acessíveis, e as próximas páginas são uma boa ocasião para começar.

Frases axiomáticas

  • O corpo e a experiência consciente são um campo de observação sempre disponível.
  • Observar a própria experiência muda o recorte do que se percebe e, às vezes, a própria experiência.
  • Perceber um pensamento não revela sua causa.
  • A emoção orienta a interpretação e prepara respostas, mas não escolhe sozinha o comportamento.
  • Rever uma situação em outro estado emocional revela a influência do estado anterior sobre o julgamento.
  • Reconhecer padrões em si oferece referências para identificá-los nos outros e antecipar tendências; a observação e a conversa testam o que se infere.
  • Observar a própria matriz é parte da preparação para examinar qualquer explicação, inclusive a TRO.
  • Quem escreve também pensa a partir de uma matriz, sujeita às mesmas condições de quem lê.
  • Durante a leitura, observar a própria reação separa o que o texto afirma do modo como o recebemos.

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