Quando convencer se torna mais importante do que compreender
Uma reflexão sobre lucidez, identidade, persuasão e cooperação cognitiva na comunicação contemporânea.
Recentemente encontrei em uma rede social uma publicação que dizia:
“Eu não brigo por política, até porque, se Jesus está à direita do Pai, quem sou eu para ir para o outro lado? E não me perturbem.”
Não importa aqui quem escreveu ou compartilhou a frase. Também não importa se a pessoa se identifica politicamente com a direita ou com a esquerda. Poderíamos encontrar construções igualmente frágeis destinadas a defender praticamente qualquer ideologia. O que interessa é a estrutura da mensagem e aquilo que ela revela sobre uma forma bastante comum de funcionamento da consciência humana.
À primeira vista, a frase parece espirituosa. É curta, facilmente memorizável e combina religião e política em poucas palavras. Exatamente por isso pode ser retoricamente eficiente.
Logicamente, porém, é quase vazia.
Quando a tradição cristã afirma que Jesus está “à direita do Pai”, a palavra “direita” não designa uma posição no espectro político contemporâneo. Trata-se de uma imagem religiosa associada a honra, autoridade e proximidade com Deus. Já a divisão política entre esquerda e direita surgiu muitos séculos depois, em circunstâncias históricas completamente diferentes.
A frase simplesmente toma dois significados distintos da mesma palavra e estabelece entre eles uma relação inexistente.
Jesus está à direita do Pai. Logo, a direita é o lado de Jesus. Se Jesus está desse lado, devo estar politicamente desse lado.
Não existe uma sequência lógica capaz de sustentar essa conclusão.
Mas é justamente aqui que a frase se torna interessante. Porque aquilo que ela perde em lógica pode ganhar em eficiência psicológica.
Para alguém cuja identidade está profundamente associada ao cristianismo, não é necessário discutir modelos econômicos, desigualdade, liberdade individual, papel do Estado, políticas públicas, propriedade, distribuição de renda ou qualquer outro tema político. A frase oferece um caminho incomparavelmente mais curto:
Jesus → bem → direita → escolha correta.
Implicitamente, surge também o caminho inverso:
outro lado → esquerda → afastamento de Jesus.
A política deixa de ser examinada e passa a ser identificada.
Não se oferece ao receptor informação suficiente para que ele construa uma conclusão. Oferece-se uma conclusão pronta associada a uma das figuras emocionalmente mais importantes de sua estrutura de crenças.
Isso não é informar. É influenciar.
O problema não é ser de direita
É importante esclarecer isso porque vivemos justamente no ambiente que este texto pretende examinar.
Esta não é uma crítica à direita, assim como não é uma defesa da esquerda. A mesma estrutura poderia aparecer invertida, utilizando desigualdade, pobreza, fascismo, democracia, ciência, Constituição ou qualquer outro conceito emocional ou moralmente poderoso para transformar determinada posição política em sinal automático de virtude e a posição adversária em sinal de ignorância ou perversidade.
Na comunicação polarizada, palavras como “democrático”, “antidemocrático”, “constitucional”, “inconstitucional”, “liberdade” e “justiça” podem ser apropriadas simultaneamente por grupos adversários. O conceito aparentemente permanece o mesmo; a interpretação muda conforme a experiência, a identidade e os interesses de quem o utiliza.
Cada grupo passa a enxergar o mundo através de sua própria estrutura interpretativa e, progressivamente, deixa de perceber que está interpretando.
Esse talvez seja o ponto fundamental.
O que chamo aqui de alta lucidez
Antes de prosseguir, é necessário definir lucidez, porque não estou utilizando a palavra como sinônimo de inteligência, escolaridade, erudição ou quantidade de informação acumulada.
Uma pessoa pode ser extraordinariamente inteligente e pouco lúcida.
Pode possuir enorme conhecimento dentro de determinada área e ser incapaz de perceber os condicionamentos que estruturam sua própria visão de mundo.
Pode conhecer profundamente política, religião, história e psicologia e utilizar todo esse conhecimento apenas para manipular outras pessoas.
Isso é capacidade intelectual. Pode ser inteligência estratégica. Não é necessariamente lucidez.
Por alta lucidez entendo aqui uma capacidade ampliada de perceber a realidade reconhecendo permanentemente que aquilo que chamamos de realidade chega até nós através de uma consciência interpretativa.
Não vemos simplesmente o mundo. Interpretamos o mundo.
E interpretamos a partir de uma história: família, língua, cultura, religião, educação, traumas, recompensas, grupos aos quais pertencemos, época em que nascemos e incontáveis experiências que participaram da construção daquilo que hoje chamamos de “eu”.
Ser lúcido, portanto, não significa livrar-se magicamente desses condicionamentos. Significa tornar-se progressivamente capaz de percebê-los operando.
É desenvolver metacognição: observar não apenas aquilo que pensamos, mas como estamos pensando e por que determinada conclusão nos parece tão evidentemente verdadeira.
É conseguir transitar entre perspectivas diferentes sem precisar imediatamente transformá-las em identidades próprias.
É olhar para uma crença religiosa sem precisar ser religioso ou antirreligioso para compreendê-la; analisar uma ideia de esquerda sem precisar tornar-se de esquerda; compreender uma proposição conservadora sem precisar defendê-la; examinar diferentes ciências, filosofias, culturas e momentos históricos procurando aquilo que cada perspectiva permite enxergar e aquilo que deixa invisível.
Alta lucidez não é uma visão cósmica absoluta. Isso provavelmente é inalcançável.
É uma direção.
Quanto mais conseguimos nos afastar da prisão exclusiva da própria experiência, mais perspectivas incorporamos à representação da realidade. E quanto maior a representação, maior tende a ser nossa capacidade de perceber relações, consequências e contradições que anteriormente permaneciam invisíveis.
A consciência não começou conosco
Há ainda outra dimensão importante.
Nenhum de nós começou intelectualmente do zero.
Muito antes de nascermos, incontáveis gerações observaram o mundo, cometeram erros, descobriram regularidades, criaram técnicas, desenvolveram linguagens, religiões, filosofias, instituições, artes e ciências.
Uma geração recebeu informações da anterior, modificou-as e transmitiu outras informações à seguinte.
O domínio do fogo não precisou ser redescoberto individualmente por cada ser humano. A roda não precisou ser reinventada por cada criança. A escrita permitiu preservar conhecimento para além da memória individual. Livros multiplicaram essa capacidade. Instituições organizaram conhecimentos especializados.
Podemos pensar, metaforicamente, que a consciência coletiva humana vem sendo continuamente atualizada.
Não de maneira linear. Não necessariamente em direção ao “melhor”. Há avanços, retrocessos, destruições, esquecimentos e reconstruções. Mas existe acumulação e transformação cultural.
Uma consciência individual altamente lúcida, portanto, não deveria utilizar apenas seus poucos anos de experiência pessoal como medida de todas as coisas. Ela procura incorporar, dentro de suas inevitáveis limitações, algo da experiência acumulada de outras consciências e de outras épocas.
Olhar historicamente para o ser humano permite inclusive perceber padrões que desaparecem quando observamos apenas a disputa política desta semana.
Internet, redes sociais e inteligência artificial
Nas últimas décadas, três transformações aceleraram extraordinariamente esse processo.
A internet conectou.
As redes sociais deram voz.
A inteligência artificial começa a fornecer capacidade de elaboração.
Cada uma dessas transformações ampliou possibilidades humanas extraordinárias. Mas nenhuma delas tornou automaticamente o ser humano mais lúcido.
A internet permitiu que informações atravessassem fronteiras em velocidade sem precedentes, embora governos, empresas, culturas e interesses políticos e econômicos continuem criando filtros, controles e assimetrias.
As redes sociais permitiram que milhões de pessoas que antes eram apenas receptoras se tornassem também emissoras.
Isso democratizou a comunicação, mas democratizou igualmente o preconceito, a desinformação, o ressentimento, a simplificação e o tribalismo.
Todos ganharam um púlpito.
Agora chegamos a uma nova etapa.
A inteligência artificial permite que uma pessoa com pouca capacidade argumentativa produza textos aparentemente sofisticados. Isso pode ser extraordinariamente positivo quando a ferramenta ajuda alguém a organizar pensamentos, confrontar hipóteses, encontrar contradições e ampliar perspectivas.
Mas pode produzir exatamente o contrário.
Uma pessoa pode chegar com uma convicção estreita, procurar apenas confirmação e utilizar uma inteligência artificial para transformar um preconceito mal articulado em um argumento retoricamente poderoso.
A tecnologia ampliou a capacidade de elaboração. Não necessariamente ampliou a lucidez de quem elabora.
Talvez estejamos entrando em uma época na qual argumentos ruins poderão ser apresentados cada vez melhor.
A célula que esquece o corpo
Uma metáfora pode ajudar a compreender por que associo lucidez a responsabilidade.
Imagine uma célula do corpo humano.
Ela possui determinado funcionamento, interage com outras células e depende de um sistema muito maior para continuar existindo.
Agora imagine que essa célula passasse a agir exclusivamente para maximizar seus próprios interesses: ocupar mais espaço, obter mais recursos, reproduzir-se mais e aumentar continuamente sua influência, sem considerar aquilo que suas ações produzem no organismo.
Localmente, ela poderia ser extremamente eficiente.
Sistemicamente, seria desastrosa.
O ponto da metáfora não é biológico, mas epistemológico.
O indivíduo também existe dentro de sistemas dos quais depende: família, comunidade, sociedade, cultura, economia, ecossistema.
Quanto maior sua lucidez, maior deveria ser sua capacidade de perceber que aquilo que faz aos outros não ocorre em um universo separado daquele em que ele próprio vive.
É nesse sentido que responsabilidade e lucidez começam a se aproximar.
Não porque a pessoa lúcida precise obedecer a determinado código moral, mas porque, conforme aumenta sua compreensão das interdependências, torna-se cada vez mais difícil imaginar que manipular, degradar ou desorganizar continuamente o ambiente humano ao redor não produzirá consequências sistêmicas.
Uma célula verdadeiramente capaz de compreender o organismo perceberia que preservar o organismo também faz parte da preservação de si.
Influenciar sem informar
Voltemos então à publicação:
“Se Jesus está à direita do Pai, quem sou eu para ir para o outro lado?”
Qual liberdade cognitiva está sendo oferecida ao receptor?
Praticamente nenhuma.
Não se apresentam diferentes perspectivas. Não se fornecem informações. Não se expõem vantagens e desvantagens. Não se convida à reflexão.
Utiliza-se uma identidade religiosa para produzir adesão política.
E então vem o encerramento:
“E não me perturbem.”
A estrutura torna-se particularmente reveladora.
Eu exerço minha liberdade de influenciar você, mas não ofereço reciprocamente abertura para que você influencie a mim.
Tenho uma conclusão para transmitir, mas não estou interessado no processo pelo qual nossas diferentes representações da realidade poderiam entrar em contato e talvez modificar uma à outra.
E aqui aparece um dos problemas mais importantes da comunicação contemporânea.
Discussão ou cooperação cognitiva?
Grande parte das conversas políticas parece organizada como uma guerra.
Eu possuo A. Você possui B.
Meu objetivo é proteger A e destruir B.
Se você demonstra uma falha em meu argumento, perdi. Se reconheço algo correto no seu argumento, cedi. Se modifico minha opinião, fui derrotado.
Isso é muito diferente daquilo que poderíamos chamar de cooperação cognitiva.
Na cooperação cognitiva, eu chego com A e você chega com B, mas nenhum de nós precisa sair da conversa carregando aquilo que trouxe.
Colocamos A e B sob pressão.
Descobrimos onde A explica melhor a realidade. Descobrimos onde B percebe algo que A ignorava. Eliminamos contradições. Incorporamos informações.
Talvez terminemos em C.
E C pode ser uma representação que nenhum de nós seria capaz de produzir sozinho.
Nesse modelo, você demonstrar que estou errado não constitui necessariamente uma agressão. Pode constituir uma contribuição.
Você acabou de me ajudar a abandonar uma representação menos adequada da realidade.
Isso exige separar progressivamente ideia de identidade.
Quando aquilo que penso se transforma naquilo que sou, qualquer ataque à ideia parece um ataque a mim.
Quando consigo observar minhas próprias ideias como construções provisórias, posso permitir que sejam destruídas sem sentir que eu próprio estou sendo destruído.
Talvez aí esteja uma das expressões mais importantes da lucidez.
O problema é antigo; as ferramentas são novas
Seria confortável culpar as redes sociais por tudo isso.
Mas provavelmente estaríamos cometendo outra simplificação.
Tribalismo, dogmatismo, propaganda, perseguição ao diferente e fusão entre crença e identidade acompanham a humanidade há muito tempo.
O que mudou foi a infraestrutura.
A internet aumentou brutalmente a conectividade.
As redes sociais aumentaram brutalmente a capacidade individual de publicação e permitiram a formação instantânea de comunidades identitárias.
E agora a inteligência artificial começa a aumentar brutalmente a capacidade individual de elaboração e persuasão.
Talvez estejamos atravessando uma fase de desequilíbrio entre poder comunicativo e maturidade para utilizá-lo.
A tecnologia evoluiu mais rapidamente do que nossa capacidade coletiva de compreender as consequências psicológicas e sociais de seu uso.
Isso não significa que permaneceremos necessariamente assim. Sistemas humanos também respondem aos desequilíbrios que produzem. Novas normas culturais, formas de educação, tecnologias e maneiras de interação podem emergir justamente dos problemas que agora começamos a perceber.
Mas nenhuma tecnologia fará isso automaticamente por nós.
Talvez a pergunta mais importante não seja “de que lado você está?”
Talvez seja:
O que seria necessário acontecer para você reconhecer que está errado?
Se a resposta for “nada”, já não estamos investigando a realidade. Estamos protegendo uma identidade.
A pessoa altamente lúcida também possui crenças, preferências, afetos, história, limitações e vieses. Ela não transcendeu sua humanidade.
A diferença está em outra coisa.
Ela tenta perceber essas forças operando dentro de si.
Tenta incorporar perspectivas que não nasceram de sua própria experiência.
Tenta olhar para o presente através da história.
Tenta perceber o outro não simplesmente como adversário, mas como outra consciência carregando uma representação parcial da mesma realidade.
E, principalmente, permanece capaz de se reelaborar.
Por isso, considerada literalmente e sem algum contexto excepcional que desconheçamos, é extremamente improvável que uma mensagem como “Jesus está à direita do Pai, quem sou eu para ir para o outro lado? E não me perturbem” seja manifestação de alta lucidez no sentido aqui definido.
Não porque escolheu o lado errado.
Mas porque praticamente não houve escolha cognitiva alguma na estrutura oferecida pela mensagem.
Há uma associação. Uma identidade. Uma conclusão. E uma porta fechada.
Talvez o maior problema das polarizações humanas não seja existirem pessoas olhando para a realidade de lugares diferentes. Isso é inevitável e, potencialmente, extraordinariamente produtivo.
O problema começa quando deixamos de utilizar essas diferenças para ampliar mutuamente nossas representações do mundo e passamos a utilizá-las apenas para defender aquilo que já acreditávamos antes de a conversa começar.
Nesse momento, deixamos de pensar juntos.
Passamos apenas a disputar qual consciência conseguirá impor à outra a sua própria interpretação da realidade.